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Set 10
By Kawamura, às 23:14link do post | Comments

Aviso: estou cansado e, como sempre acontece quando estou cansado, não tenho paciência para conices. Por isso, neste post, não tive paciência/vontade para censurar palavrões. Saiu o texto como o pensei na minha cabeça.

 

Ora pois que hoje o dia proporcionou-se a uma qualquer coisinha aqui no blogue. E hoje vai em Português para não mudar muito o estilo dos últimos tempos. Estou cansado como há muito não estava. O dia começou mesmo mal e acabou ainda pior. O caralho das forças do Universo, hoje, não me largaram e estive na mira o tempo todo. Tudo começou de manhã, bem cedo, por volta das 7:15 da manhã, alí para os lados de Hyde Park Corner. O pneu de trás fura e eu sem nada para remendar ou encher o dito pneu. Ok. Logo hoje que tinha de fazer uma apresentação importante num comité de Senior Management. Foda-se. Ok, tudo bem. Arranje-se um lugar para estacionar a bicicleta e apanhe-se o metro para o escritório. Tudo bem, se houvesse um estacionamento de bicicletas por perto. Foda-se Parte II. Ok, nada de grave, ande-se uns míseros 500m até Knightsbridge, estacione-se a porra da bicicleta e apanhe-se a porra do metro de uma vez por todas.

 

Alegria das alegrias: a apresentação correu bem e o documento foi aprovado. Boa. "Afinal o dia até vai correr bem". Wrong. Quer dizer, partially wrong. O dia correu bem, mas acabou mal, mal, mal. Ora aqui vai este Kawamura da Silva Pincel todo pimpão na rua, vestido de ciclista órfão de bicicleta e correndo como um maluquinho em direcção ao local onde deixou a puta da bicicleta de manhã, quando começa a chover tor-ren-ci-al-mente. Mas é que não estão bem a ver. Foda-se Parte III. Eu moro em Londres há 4 anos e NUNCA apanhei uma molha destas, nunca. Por isso imaginam. Ora este Kawamura da Silva Pincel em pleno Green Park às escuras, a dar uma de Mister Goldfish Molhado como uma T-Shirt bem coladinha ao corpo e a pingar água por todos os lados, ainda é parado por um bando de turistas espanholas histéricas que nunca tinham visto tanta água e que queriam saber onde era a puta do palácio de Buckingham mais a puta que as pariu a todas, caralho. Anda por cima o palácio estava à frente delas, foda-se Parte IV...

 

Ora após subir aquele declive delicioso que leva de Buckingham Palace a Hyde Park Corner finalmente cheguei ao local onde a bicicleta estava, morta e desenchidita, coitada. Nessa altura o ânimo tinha melhorado substancialmente, sobretudo devido à proximidade com a natureza, a água que deslizava por todo o corpo, incluíndo partes impróprias, os pássaros que aproveitavam o dilúvio para tomarem um duchito, enfim, a caga de cavalo fumegante no meio do passeio, enfim, uma plétora de coisas lindas, gostosas e fofas que aproximavam até o mais aguerrido metrosexual do seu Eu camponês.

 

Kawamura da Silva Pincel julgava que as coisas iam correr melhor daí por diante, mas enganou-se redondamente. Eis que a espuma isolante e reparadora de pneus furados pela qual havia pago a módica quantia de 6 libras esterlinas à hora de almoço num vã esperança de ressuscitar a sua bicicleta não funcionou e Kawamura da Silva Pincel se viu envolto numa núvem de espuma fedorenta e altamente pegajosa, ao mesmo tempo que o dilúvio continuava, sem dar tréguas, e hordas de cabras oriundas dos países do Golfo, envoltas em sacos do Harrods, passavam e olhavam com desdém esta criatura que, com este tempo, prefere andar de bicicleta em vez de apanhar, no mínimo, um "taxe". Kawamura da Silva Pincel atirou a puta do spray o mais longe, violentamente e aleatoriamente possível. Matei alguém hoje com uma lata de espuma reparadora de pneus furados? Que se foda, Parte V.

 

Ora lá foi este Kawamura andando mais uns 5 kms até casa com a sua bicicleta ao lado, num estado de torpor, desilusão e pós-raiva, invejando aqueles paneleiros que passavam por ele a altas velocidades nos seus calçõezinhos justos de licra e faróis pisquantes. E eis que chego a casa e me apercebo que o meu Rei, o outro  (e único) maluquinho aqui de casa que vai de bicicleta para o trabalho, tinha caído no regresso a casa por causa de uns turistas de merda que insistem em atravessar a rua quando o sinal está vermelho para os peões.

 

Moral da história: o dia podia ter sido muito pior, e devemos mas é cultivar o nosso jardim. Por várias vezes no meu regresso pensei nesta mulher que recentemente tomou uma decisão do caralho. Confirma-se que vai levar um pouquinho de nós, Portugueses, a criaturas menos afortunadas de um país da América Central, em regime de voluntariado. Essa Mulher, com M, vai ficar para os Anais da História como a que consegue dizer mais caralhadas por centímetro de frase e ser ao mesmo tempo a pessoa mais on time que alguma vez conheci. É do caralho, senhores leitores... Bem, voltando à vaca fria, tenho de deixar bem clara a minha admiração por esta Mulher porque teve coragem de fazer qualquer coisa, uma coisa que seja, para mudar as coisas. Romantica? É de certeza. Ingénua? Até pode parecer, mas não acredito que o seja. Seriamente uma Grande Mulher? Garantidamente, sim. E vai para o fim do mundo, como já o fez uma vez, à procura de qualquer coisa. Sem pruridos, sem "ai meu Deus, e o que é que os outros vão pensar". Que se fodam os outros, que se foda eu que estou para aqui a mandar bitaites. Só posso mesmo fazer um pequeno número de coisas: apoiar, dizer que sim, torcer para que tudo corra bem, que ela fique bem lá longe e que volte inteira, saudável e com tudo o que queira resolver, resolvido. E esperar que agarre esta oportunidade e dê uma passadinha por Ushuaia e Buenos Aires... E sobretudo que seja feliz como o caralho, porque merece. Já conheci meio mundo e, foda-se, se há quem mereça um pouco de felicidade é esta Mulher.

 

E agora que estou mesmo no limite das forças vou dormir. E pensar que o dia podia ter sido muito pior. Pode ser sempre pior e nunca será culpa nossa. E pensar  naquele famoso anúncio de um leite há uns anos: "se não gostares de ti, quem gostará?"...